come pouco

    Alimentação da criança que come pequenas porções

    Por
    Mirella Pasqualin, Nutricionista

     

    Uma das grandes preocupações dos pais com a alimentação dos filhos é o fato de a criança comer pouco. Por conta disso, é muito importante que alguns pontos sejam esclarecidos, até mesmo para tranquilizá-los e ajudá-los a identificar se a situação é de fato preocupante1.

    Em primeiro lugar, é preciso compreender que o organismo das crianças não funciona da mesma forma que o dos adultos. Por conta disso, muitos aspectos do dia a dia podem influenciar o apetite das crianças, esse que é mais estável entre os adultos. A idade, o nível de atividade física, a temperatura ambiente e até mesmo as condições físicas e psíquicas das crianças interferem sobre a quantidade de alimentos que irão consumir2,3.

    É fundamental, também, atentar para o fato de que o estômago das crianças tem capacidade para uma quantidade menor de alimentos que o dos adultos e suas necessidades de nutrientes também não são as mesmas4. Sendo assim, dois fatores frequentemente fazem com que as mães e os pais acreditem que seus filhos estão comendo pouco: tomar como referência as quantidades consumidas por eles mesmos, já adultos, e sua “bagagem cultural”.

    Com relação à quantidade, o ideal é oferecer quantidades relativamente pequenas, consideravelmente menores do que as que compõem os pratos dos adultos, e uma vez que a criança aceite e se mostre propensa a comer mais, oferecer mais alimentos, até que ela manifeste estar satisfeita1,2,3. Quanto à bagagem cultural, alguns estudos já mostraram que determinadas culturas, como as de populações de origem europeia, tendem a apresentar maior pressão para que as crianças se alimentem em grandes quantidades, bem como maior percepção de que as crianças comem pouco5,6. Considerando que ancestrais europeus contribuíram para quase 80% da herança genética da população brasileira7, é de se esperar que essa bagagem cultural relacionada à alimentação das crianças também tenha sido, ao menos em parte, absorvida pela nossa população.

    Então, é preciso se preocupar realmente com a quantidade ingerida pelas crianças quando (1) elas alegam estar satisfeitas muito facilmente, ingerindo apenas quantidades de alimentos muito pequenas; (2) quando passam a rejeitar alimentos; e principalmente, (3) no caso de o crescimento e o desenvolvimento estarem sendo prejudicados, refletindo carência de nutrientes. A partir de observação atenta e auxílio do pediatra e de outros profissionais de saúde, é possível identificar se a criança mostra sinais de fraqueza, apatia, prejuízos à interação, resposta a estímulos e aprendizado e crescimento (em termos de peso e/ou altura) abaixo do esperado para a idade2,3,5.

    Tendo isso em vista, caso os “sinais de alerta” sejam identificados, é preciso buscar auxílio dos profissionais de saúde com o objetivo de avaliar a melhor estratégia para melhorar a alimentação da criança1. Mas, em caso negativo, é necessário repensar: será que meu filho realmente come pouco ou minhas expectativas em relação à quantidade que ele consome estão muito altas?

     

    Dicas práticas:
    para crianças que comem pequenas porções

    Aumente o número de refeições ao longo do dia

    Fracionar a alimentação para que as crianças tenham mais momentos para comer pode facilitar a ingestão de nutrientes importantes. O ideal são 5 a 6 refeições por dia, com intervalos de, aproximadamente, 3 horas.

    Leve as crianças para a cozinha

    Incluir as crianças na preparação dos alimentos para que elas tenham maior interesse e curiosidade em experimentá-los pode ser uma estratégia eficiente. Compartilhe decisões, escolhas e experiências, e estará contribuindo para além do hábito alimentar!

    Aumente a quantidade de alimentos progressivamente

    Um aumento progressivo da quantidade de comida colocada no prato pode ajudar na alimentação dos pequenos. Inicie com uma quantidade pequena, depois de alguns dias aumente sutilmente e assim por diante, até que ela consuma uma quantidade suficiente para suprir todas as suas necessidades.

    Tome cuidado com as “recompensas”

    É importante que as crianças entendam que se alimentar é essencial para ter energia para crescer, brincar e estudar. Além disso, elas precisam aprender a identificar quando estão satisfeitas, sem que essa sensação seja mascarada por uma recompensa ou um presente.

    Faça da alimentação um momento de descontração

    É preciso descontração para que as crianças se sintam bem ao realizar as refeições. Aprender seus limites também faz parte do processo de descobertas e desenvolvimento do hábito alimentar!

    Referências Bibliográficas

    1. Cardona Cano S, Hoek HW, Bryant-Waugh R. Picky eating: the current state of research. Curr Opin Psychiatry. 2015 Nov;28(6):448-54.

    2. Lins TC, Vieira RG, Abreu BS, Grattapaglia D, Pereira RW. Genetic composition of Brazilian population samples based on a set of twenty-eight ancestry informative SNPs. Am J Hum Biol. 2010 Mar-Apr;22(2):187- 92.

    3. Philippi et al. Pirâmide dos alimentos. Fundamentos Básicos da Nutrição; Barueri SP. Manole 2008. 3-387.

    4. SBP - Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento de Nutrologia. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

    5. Scaglioni S, Salvioni M, Galimberti C. Influence of parental attitudes in the development of children eating behaviour. Br J Nutr. 2008 Feb;99 Suppl 1:S22-5.

    6. Taylor CM, Wernimont SM, Northstone K, Emmett PM. Picky/fussy eating in children: Review of definitions, assessment, prevalence and dietary intakes. Appetite. 2015 Dec;95:349-59.

    7. Viana V, Santos PL, Guimarães MJ. Comportamento e hábitos alimentares em crianças e jovens: Uma revisão da literatura. Psic., Saúde & Doenças [online]. 2008; 9(2):209-231.

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